No limbo


Segundo o engenheiro eletrônico, matemático e criptógrafo norte-americano Claude Shannon, autor do livro A teoria matemática da comunicação, "informação é tudo aquilo que reduz a incerteza". Agora me responda: como você se sente no meio desse colossal e crescente emaranhado de conteúdo online? Frustrado e inseguro? Extraviado como chinelo de bêbado? Faceiro como mosca em rolha de xarope?

Esse fluxo ininterrupto e de alta rotação nos faz querer dormir do lado do celular ou mesmo do computador (!), consumindo informação de maneira quase doentia. Monitoramos o que nossos amigos estão fazendo, lemos as notícias da última meia-hora, pesquisamos sobre a dieta do momento e abastecemos o Kindle com mais de duzentos novos livros (não sou hipócrita, falo por experiência própria). Arrisco dizer que consumimos mais informação em apenas um ano do que os nossos bisavós consumiram durante a vida toda! 

Vejamos alguns dados curiosos que circulam pela internet:

Mais de 1.000 novos títulos de livros são editados por dia em todo o mundo. Nesse momento, estão em circulação mais de cem mil revistas científicas. Existem mais de três bilhões de páginas disponíveis na internet. Entre 1986 e 2007, produzimos 296 exabytes de conteúdo. Exabytes? Um exabyte equivale a cerca de um bilhão de gigabytes. Ainda está difícil? Em termos físicos, "esse valor equivale a uma pilha de CDs de 400 metros de diâmetro, capaz de ultrapassar a altura da Lua", de acordo com Martin Hilbert, pesquisador da University of Southern California.

Você pode até me chamar de alarmista ou de lunático, só pra aproveitar o gancho, mas vamos em frente. O excesso de estímulos pode nos empurrar para o limbo. Podemos nos anular completamente. Esse é o problema-chave, o fator número um que me levou a escrever esse artigo. A partir dos anos 2000, começaram a surgir as primeiras pesquisas sobre as consequências do excesso de informação. Os pesquisadores constataram algo interessante e assustador: uma das sequelas do consumo massivo de conteúdo é a dificuldade na tomada de decisão. Desde pequenas decisões diárias até grandes decisões que podem influenciar no curso de vida do indivíduo. Eu demorei uma eternidade para compreender isso plenamente. E o pior: só compreendi quando estive envolvido nessa situação no nível mais hardcore, me sentindo completamente anulado.

Lemos sobre os problemas do capitalismo e nos desestimulamos a empreender de forma criativa, de acordo com os nossas premissas pessoais, pois achamos que nada mais vale a pena; nos empanturramos de notícias sangrentas e nos deprimimos achando que o mundo merece um "reset"; nos sentimos miseráveis porque nossos amigos do Facebook estão curtindo as férias na Europa e a gente não tem grana nem pra ir ver o filme novo do Tarantino; não sabemos mais que cerveja beber porque algumas "podem ser potencialmente cancerígenas"; o nosso prato preferido era saudável e nutritivo, mas agora virou um vilão da alimentação saudável; a arte não flui porque estudamos demais e produzimos de menos e por aí vai... O processo cognitivo relacionado a tomada de decisão se torna caótico, semelhante a uma bola de pinball sendo jogada de um lado para o outro.

Em um nível mais avançado, refletindo a partir de uma perspectiva mais ampla, se adotarmos a premissa de Shannon temos que repensar seriamente a nossa relação com a internet, pois frequentemente escavamos em busca de um Santo Graal do desenvolvimento pessoal, ou seja, de algo que transforme a vida, que resolva todos os problemas, quando na verdade deveríamos buscar simplesmente um pouco de silêncio. Em outras palavras, vemos no Google um oráculo pós-moderno. Basta digitar lá e a mágica acontece. 

Vale ressaltar que eu não tenho uma visão negativa a respeito da tecnologia, em si. Sempre tive uma forte veia autodidata e a internet se tornou a minha escola preferida, seja para aprender a tocar um instrumento musical, aumentar minha bagagem cultural ou até mesmo para discutir e compartilhar técnicas específicas relacionadas ao meu trabalho. No entanto, em alguns momentos, eu exagerei. A internet se tornou a vilã da história. Como não quero que vire um relato do tipo Alcoólicos Anônimos, vou lhe poupar dos detalhes.

E a solução? Filtrar os estímulos externos. Isso deveria se tornar tão vital quanto respirar. Não é por acaso que um dos pilares do budismo é a "atenção plena", ou seja, só é possível se livrar das armadilhas externas e mentais monitorando constantemente os pensamentos assim que eles surgem. Com um pouco de treino, lembrando desse conceito ao acordar, por exemplo, você começa a progredir. Ele vai proteger o seu "sistema operacional", sendo uma espécie de antivírus. 

Devemos compreender também que temos o nosso próprio ritmo e que devemos respeitá-lo. Essa clareza ajuda a evitar outro problema decorrente da overdose de informação: o transtorno de ansiedade. Não temos a obrigação de estar sempre antenados. Surfar todas as novas ondas não necessariamente nos deixa um passo a frente em relação aos demais. Não é fácil, pois somos atraídos pelo fluxo e detestamos "estar por fora". Contudo, podemos sair do piloto automático, evitando gravitar totalmente anulados e sem rumo pelo limbo. Basta um pouco de sobriedade e temperança.




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