O labirinto vivo


O vento anuncia a proximidade de mais uma tempestade de verão com energia e fúria contagiantes. É um vento punk, um punk rock clássico. Para a sacola plástica, só resta se deixar levar praticamente sem resistência em direção ao céu. Quem invejaria uma sacola? Sem rumo, ela facilmente deixa para trás todos aqueles muros que se erguem com milhares de tijolos de motivos. A beleza do vazio, da completa ausência, do nada. Um balé suave por ares agitados. O nada flutuando entre janelas e tentando seduzir em vão os colecionadores de expectativas.

Do alto, talvez eu poderia ver tudo apenas como um pequeno labirinto vivo. Quer se esteja lá no norte ou aqui no sul, parece opressor demais estar na superfície. Daqui é possível grafitar as paredes desse labirinto, alimentar e colorir os sentidos. É possível se exercitar entre o verde programado e ao redor de um lago artificial ou quem sabe trocar algumas palavras com o senhor desconhecido, em busca de um sinal, de uma pista, de uma migalha suficientemente capaz de amenizar essa fome mordaz por um sentido qualquer. 

A chuva passa e refresca os ânimos. Mais uma noite chega, aos poucos as luzes se apagam, e todos se recolhem em suas micro experiências diárias. Sonhos calmos e agitados. O inconsciente berra e depois sussurra. O labirinto está aí? Por que não trapacear? Será que é possível escalar e pular o muro? A vertigem sequestra a coragem e a queda é inevitável. Um segundo antes do baque, o despertar salvador. É bom estar vivo. É um alívio estar vivo. A distância entre o inferno e o paraíso pode ser percorrida durante algumas horas de repouso.

Tantas perspectivas possíveis, mas quantas resistem até a próxima tempestade? "O homem é a criatura que, para afirmar o seu ser e sua diferença, nega", já dizia Camus. Poucos se deixam levar pelo absurdo e negam, negam, negam. São máquinas de negar. Não vivem do absurdo, mas sobrevivem da negação. Até mesmo a paz, que não por acaso quase sempre chega por acidente, logo será refutada. A busca pelo caminho ideal continua, enquanto a velha sacola toca o chão novamente.



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