O início do Fim


Tendo como pano de fundo este dia 17 de abril, data importante para o Brasil em vista do que está ocorrendo no Congresso Nacional, sai cedo e fui fazer compras para o almoço. Enquanto caminhava até o estabelecimento comercial, a vários metros da entrada, já se podia escutar alguém vociferando contra Dilma e os programas sociais, especificamente o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Ao entrar no recinto notei que dois senhores brancos, entre 55 e 60 anos, discutiam o tema com certa indignação. Preferi ignorar o que falavam já na chegada, pois não concordo com a maior parte do que eles diziam. Fiz minhas compras e ao me dirigir ao caixa o proprietário do estabelecimento, que não irei identificar, perguntou minha opinião: “E ai? O impeachment vai ou não para o Senado?” Contudo, antes que pudesse responder, um dos senhores que discutiam com grande entusiasmo interviu, raivoso: “Enquanto não botarem um militar lá, esse país não muda! Tu não vai mais poder sair com tua família, se sair vai ter ‘neguinho’ pronto pra bater tua carteira!” Olhei para ele e senti um certo desprezo, confesso. Mas preferi o silêncio. Agradeci ao dono do mercado e saí, pasmo com tudo que havia escutado em menos de 5 minutos. Aquilo, somado a visão de Michel Temer como chefe do executivo, me fez pensar. Na verdade, mais do que pensar, a situação me impeliu a escrever. 

Creio que, num primeiro momento, quando nos deparamos com discursos desta categoria, não acreditamos imediatamente na existência desta impressionante capacidade de iludir multidões. Lembrei-me então de Freud e de seu sobrinho, Edward Bernays, e conclui que, sim, ela existe. A realidade é que, na ordem dos milhões, as massas são, de fato, manipuladas através de artifícios muito bem estudados. Além de estudados, postos em prática ao longo da história, não apenas da América Latina, mas no mundo todo. “Dividir para conquistar”, é uma estratégia básica de quem tem interesses econômicos e políticos em um determinado país. Enquanto um povo se digladia por quaisquer que sejam as ideologias, vai se abrindo espaço para uma realidade ruim para todos. Sem capacidade de ler nas entrelinhas, o cidadão comum se polariza, assumindo a defesa de um dos lados do conflito. Até mesmo os mais letrados escolhem um lado e logo põe em jogo quase tudo para provar que seu ponto de vista está correto. As vezes está disposto a discursos de ódio e a chegar às vias de fato, alimentado por informações e opiniões enlatadas e com o prazo de validade vencido. Um dos recursos dos “conquistadores” é justamente esse. Utilizar a fragilidade do ego de cada personagem da trama, por mais ínfimo que ele seja. E isso é fácil, por mais que você não acredite, os caminhos para essa conquista são a propaganda ideológica, informações direcionadas pelos medias por longos períodos, campanhas corporativas de relações públicas. Em suas limitações particulares são explorados também os políticos demagogos financiados por empresas, partidos políticos comprometidos com o capital internacional e isso, claro, culmina em dominação estrangeira dos mercados nacionais. O que, por si, é sintoma de que algo está errado há muito tempo. Tudo isso, somando-se as estatísticas mentirosas que beneficiam principalmente aqueles que lucram com estes números. Mas quem seriam esses conquistadores? O vasto capital internacional organizado, multifacetado e implacável. Eles não têm rosto, nem nome. Tem apenas interesses econômicos de longo prazo, lobistas e serviços de inteligência a seus comandos. Enquanto isso, 99% dos cidadãos de um país caminha, cheios de palavras de ordem e com a sensação de estar cumprindo seu dever, para um futuro sombrio. 

O curioso, ou trágico sob certo ponto de vista, é que o ufanismo dos indivíduos adquire um ar bastante funcional para quem os manipula, pois percebe que seu plano vai de vento em popa. Como dividir um povo? Enfraquecê-lo ideologicamente, minando suas bases políticas com dinheiro fácil e favores de luxo? Agindo na surdina, colocando os peões do executivo e legislativo no bolso, um a um? Estabelecendo vínculos escusos com o judiciário e ganhando terreno nas políticas econômicas para drenar o máximo possível de recursos? Promovendo um alcance tão exemplar da corrupção a ponto de a corrosão da infraestrutura do estado ser tão evidente como uma fratura exposta? Talvez sim. Isso e muito mais, sem dúvida, pois uma avaliação à queima roupa como esta jamais alcançaria o nível de sofisticação do sistema internacional de corrupção que assola o Brasil. É isso mesmo. Nosso país é uma peça importantíssima de um sistema internacional de corrupção. Enquanto este sistema não ruir, não existe futuro limpo para o Brasil. No entanto, chegamos até aqui devido a uma prolífica e duradoura relação entre corruptos e corruptores. Catapultada pelo fato de que, por trás das titulações de nossos políticos, existe uma mediocridade inesgotável, uma avidez insaciável por dinheiro. Eles dão e fazem tudo o que for necessário, tudo mesmo, por uma gorda propina. Às vezes vitalícia. Um prato cheio para os absurdamente ricos lá de fora e um nervo exposto para um povo inteiro. A ignorância disso tem tido como resultado o avanço gradativo de projetos infames das transnacionais, como transformar a água do Rio Amazonas em commodity para ser negociada nas bolsas de valores mundo afora. É muito provável que nossos netos enfrentem uma batalha pela água durante este século, considerada o “ouro azul” (BLUE GOLD), pelo capital estrangeiro.

Só que essa ignorância não é por acaso. Está sendo construída há décadas, pois nossa educação foi entregue pelos políticos, em todos os níveis, aos banqueiros internacionais no século XX. O futuro que se vem desenhando desde então não é positivo para o Brasil. Para o povo quero dizer, pois a classe política e os grandes executivos lucram demais com isso. O que se tem em mãos, com a queda ou não do governo Dilma, não é solução para os problemas do Brasil. Se você acredita que a crise financeira que vivemos é culpa do PT, reveja seus conceitos, pois o buraco é muito mais embaixo. Há muitas crises em curso. O PT apenas as agravou. Crise econômica, moral, ambiental, política, educacional, social, cultural, crise na saúde, na segurança pública, nas estradas, na alimentação. Em cada favela brasileira há uma crise em curso agora mesmo. E isso é responsabilidade de cada um dos governos que o Brasil teve, pois a corrupção é endêmica e sempre foi assim. É desse modo que funciona. No entanto, a única crise que queremos afastar, de fato, é a financeira. O resto é o resto. Paradoxalmente, como se não existisse, a dívida pública ainda está lá, crescendo diariamente e ninguém vai para as ruas lutar contra ela. As políticas neoliberais, mesmo em governos aparentemente de esquerda, nunca deixaram de ser seguidas e vão continuar assim, quase ninguém se arriscando a contestá-las. Principalmente os cidadãos, às vezes tão polarizados, mas ignorante de quase todo o resto. O que se nota, sim, são centenas de deputados, senadores, vereadores, governadores e prefeitos a defendê-las. Não existem políticos interessados em romper com esses tenebrosos mecanismos de assalto ao nosso país. Ninguém se atreve a levantar a questão. Você lembra o resultado da CPI da Dívida Pública, em 2010? Se não lembra, vale a pena revisitar o caso.

O duro é que o sistema político, mesmo que o Brasil proteste de ponta a ponta, não será reformado de maneira significativa. O sistema de licitações vai continuar, assim como praticamente todos os outros mecanismos de favorecimento ao roubo do dinheiro público. A taxa Selic, o superávit primário, a dominação do mercado nacional pelo capital estrangeiro organizado, o comprometimento do PIB com os juros da dívida, tudo isso permanecerá drenando plenamente nossos recursos para fora do país. Os políticos que votamos para nos representar não estão comprometidos conosco, nem com o país, mas sim com eles mesmos e seus correligionários. Basta olhar o passado para notar que nada mudou. Basta olhar para o presente e ter certeza de que, pelo contrário, estamos cada vez mais de joelhos como povo, vendo o desmanche dos mecanismos sociais pela ação da corrupção generalizada. E nada vai mudar, a menos que, de alguma forma, o povo paralise o país.

Mesmo assim, em meio a tantos protestos, bandeiras e reivindicações, algumas cínicas por natureza, existem consciências despertando para a visão global do problema. Talvez o futuro desse cenário, repleto de crises, mude na medida em que o povo obtém a informação. Mesmo que de forma fragmentada, ela está cada vez mais disponível e a Internet é um de seus principais mananciais. Este processo de transformação não pode ser parado. Ele pode ser atrasado, mas é inevitável que aconteça. As tentativas atuais, respaldadas pelo poder político nacional, de restringir o acesso a Internet são uma evidencia clara do que estamos falando. Os direitos sociais, sempre combatidos pela classe política elitista de nosso país, são uma clara ameaça a hegemonia destas autointituladas “elites”. Esta estranha tentativa de gerar um impedimento à presidente Dilma é reflexo auto evidente dos mecanismos internos que a corrupção constrói para gerir-se. A distribuição (com ares de suborno) de cargos para recompor a base de governo também. As tentativas de proteger Lula de um lado e os vazamentos de escutas para imprensa do outro, cada lado burla como pode. Porém, para cada ação, há uma reação. O povo ainda não voltou do coma, mas está reagindo. Mesmo sem fé no futuro do sistema politico atual, permaneço com a esperança dessa transformação. Ela ainda vai demorar, mas virá e o crescente número de grupos ativistas se organizando em diversas frentes é uma indicação de conscientização. Acredito que Lula deve punido. Acredito que a Dilma e toda a corja de corruptos de cada sigla que a rodeia, também. Mas nada disso fará sentido se, com eles, não forem investigados, presos e afastados do poder Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Aécio Neves, Michel Temer e uns 90% do Congresso Nacional. Nada fará sentido se investigações não forem instauradas em cada Ministério e em cada estado brasileiro para desmascarar governadores, prefeitos, vereadores e até mesmo membros do Poder Judiciário. Enquanto o povo está nas ruas, os corruptos já se movimentam para neutralizá-lo. É preciso ficar atento! Sou a favor do FIM DA CORRUPÇÃO, o que é impossível, e sei que a maioria dos brasileiros também é. Ricos ou pobres, somos nós que pagamos impostos. Ricos ou pobres, somos nós que vivemos, movimentamos e representamos o Brasil. Ricos ou pobres, somos nós que alimentamos o monstro de várias cabeças que nossos políticos criaram. Agora cabe a nós, pelas vias legais e com muita perseverança, acabar com ele!


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